Ícone da esquerda em SC, Jaison Barreto se diz frustrado com o PT: "o Brasil construiu uma democracia estranha" - Economia - O Sol Diário
 
 

Com a palavra15/08/2015 | 16h04Atualizada em 15/08/2015 | 16h04

Ícone da esquerda em SC, Jaison Barreto se diz frustrado com o PT: "o Brasil construiu uma democracia estranha"

Para ex-deputado e senador, momento é de reflexão sobre instituições. Barreto levantou a bandeira da saúde pública no Estado e se tornou um dos líderes de maior expressão popular dos anos 1980

Ícone da esquerda em SC, Jaison Barreto se diz frustrado com o PT: "o Brasil construiu uma democracia estranha" Léo Cardoso/Agencia RBS
Foto: Léo Cardoso / Agencia RBS

Socialista ícone da esquerda catarinense, Jaison Tupy Barreto comemora 82 anos neste domingo, em Balneário Camboriú, com familiares e amigos. Um dos líderes de maior expressão popular na década de 1980, foi senador da República depois de dois mandatos de deputado federal, disputou o governo do Estado pelo PMDB e perdeu por pequena diferença para o deputado federal Esperidião Amin.

A campanha que fez em defesa da saúde pública e contra os preços exorbitantes dos remédios deu-lhe projeção nacional. Nesta entrevista, o político nascido em Laguna fala da crise que atinge o país, das frustrações nacionais com a corrupção e critica o fraco apoio do governo federal em Santa Catarina.

– Há um impasse, as redes socias estão ativas, mas não substituem os partidos políticos. Eles são necessários e precisam ser construídos.

Para ele, é em períodos difíceis que o brasileiro precisa participar da sociedade e ajudar os órgãos que investigam a moralidade pública. Leia a entrevista completa:

DC – Esta é a pior crise da história do Brasil?

Não, passei minha mocidade no Rio de Janeiro e não avaliaria assim. Eu sou da época da morte de Getúlio (Vargas), eu era estudante de medicina e foi um momento dramático. Assisti o fechamento do Congresso depois como deputado federal, participei da campanha das Diretas Já, a frustração do colégio eleitoral.

Tem um aspecto pessoal e importante, que foi a primeira eleição para presidente da República com uma competição dura no momento em que o país se reencontrava com o início da democracia, nós vivíamos em plena ditadura em 1982, com um sistema eleitoral manipulado.

É bom lembrar que era voto vinculado de cima a baixo, a intenção sempre foi roubar antes, durante e depois das eleições. Eu sou apenas uma das vítimas. Roubaram as eleições do Pedro Simon, iam roubando do (Leonel) Brizola.
 
DC – Se essa não é a pior crise do país, qual a saída?

Ao contrário de muitos, eu vejo saídas. Claro que estou decepcionado, claro que faço parte da população que está envergonhada e frustrada, mas há esperança. Na crise, o processo avança. Eu tenho formação, embora não queira posar de intelectual marxista. Na verdade, é um momento de euforia que a população tem que entender, porque estamos vendo a Justiça funcionar.

Esses episódios pequenos, e melancólicos, dos julgamentos no Supremo Tribunal Federal (STF) não invalidam a postura da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça Federal. Então, é um momento de esperança.

O movimento de afastar ou não a presidente Dilma (Rousseff) é pequeno. Tem que se cumprir a lei. As instituições estão funcionando, o que se tem que cobrar é que eles não tranquem esse processo de moralização da vida brasileira. Não é falso moralismo meu, mas o país precisa se encontrar com a verdade, com a dignidade. Este é ponto de partida.

Quando escreveram que a política é filha da moral e da razão é pra valer. Não podemos ter política sem moral. Pode parecer uma coisa pequena, mas é o ponto de partida. Então, no momento em que estão prendendo e botando na cadeia grandes figurões da República que nunca imaginaram sofrer, não é humilhação, não. É um momento de euforia, de afirmação.

É na crise que o processo avança, e cabe a cada um participar, por mais insignificante que seja, por menor participação que possa ter, para ajudar o país. Ajude a Justiça, a Polícia Federal, o Ministério Público e se ajude, porque o Brasil tem que mudar seu processo político por dentro.

Eu vejo, às vezes, pessoas que posam na imprensa como alienígenas. Vou citar o nome de uma pessoa que eu respeito, que até ajudo e colaboro com minhas críticas, que é o governador (Raimundo) Colombo, que deu uma entrevista que me surpreendeu.

Eu imagino que alguém soprou algo para ele, porque ele vem ofendendo a bancada federal, dizendo que não trabalham, que quinta-feira querem vir embora. É um burocrata de primeira categoria, é um homem público completo.

Ele foi prefeito, foi deputado federal, foi senador, foi governador. Então, se alguém ajudou a construir a imagem do político que ele denunciou, foi ele. Ele praticamente fez uma delação premiada.

DC – O que mais surpreendeu na entrevista do governador?

A declaração é incompatível com  a carreira dele. Ele disse que o regime está podre, que a política não presta, que precisamos mudar. Eu quase achei que ele fosse da oposição, eu quase me senti governo.

Agora, se for pra reconhecer que é um processo que precisa ser rompido, eu o aplaudo. O modelo que ele critica foi implantado aqui em Santa Catarina nos últimos 13 anos e desserviu os interesses catarinenses, de maneira material, comprovada.

A vergonha das desatenções aos nossos aeroportos, às nossas estradas esburacadas, à nossa assistência médica vergonhosa e a outros graves problemas enfrentados por nossa gente é responsabilidade deles.

Eles construíram um sistema político aqui que desserve a população catarinense.  Tirou-nos a voz, tirou-nos força política e vive de migalhas, de favores. Aquilo que é nosso direito passou a ser fruto da gratidão, só porque nos deram.

Isso é anti-política, isso é a negação da cidadania, que eles construíram juntos com pessoas ilustres. Essas secretarias regionais, o Colombo criticou violentamente, mas sustentou. Agora, reconhece que está na hora de acabar com esse cabide de emprego porque não tem nada a ver com a descentralização.
 
DC – Além das SDRs, o que mais está errado no sistema estadual?

Ele (Raimundo Colombo) fez um governo de unanimidades, ele colocou todos iguais, pessoas com ideias conflitantes. Isso é muito ruim para a democracia, isso ilude a população, esconde interesses. Eu sei que é feito sem má intenção, mas esse negócio de deputado estar ocupando a Casan, a Celesc, é desencantador. Tem que ser cortado.

DC – O senhor acha que SC é esse paraíso da propaganda?

Não. Aliás, a história de Santa Catarina é muito recheada desse ufanismo burro. Na época, eu dizia: nós somos o zero da BR-101. Deixamos de ter coisas importantes, a Siderúrgica nos foi tirada, os nossos aeroportos.

Há um grande universo de coisas que poderíamos ter feito, se nós tivéssemos uma prática política diferente. É muito serviçal e ficamos muito omissos:  aqui tá tudo bem, aqui é o melhor isso, melhor aquilo. Mas não deixa de ser. Não pelo governo, mas pela qualidade da nossa gente, pela nossa etnia diversificada, pelo esforço de gerações anteriores.

O que não pode é usar isso para nos tirar o direito. Nós não precisamos de favores, só queremos o que é nosso. E isso pode ser praticado se os políticos pararem de fazer essas alianças ridículas que estão fazendo. Outro dia eu escrevi um artigo dizendo que eles fariam uma delação premiada se a polícia prender algum, o que limparia o Estado.

Tem muito malandro na política catarinense que deve estar assustado. Primeiro, porque abrem os inquéritos para botar esse pessoal em julgamento. Não fazem e usam como chantagem. É tudo do mesmo ninho, todos foram chocados juntos, todos amamentados nas tetas do poder público. Alguns enriqueceram indevidamente, escandalosamente na política.

E ainda falam em nos representar. Mas o que é isso? Partidos políticos perderam credibilidade. O PSDB, por exemplo, acabou-se no Rio Grande do Sul com a administração da Yeda Crusius, uma barbaridade. A votação do Aécio aqui em Santa Catarina não foi por causa do partido, onde também tem gente decente.

DC – O senhor vê outra saída para a crise?

Eu acho que a história não dá saltos, mas se conseguirmos acabar com a impunidade será um grande avanço. A  Lava-Jato tem que ir até o final.

DC – O senhor acha que há risco da Lava-Jato ser bloqueada?

A gente percebe, pelas últimas atitudes da Dilma, que sim. Esse furor de jantares levanta dúvidas e suspeitas. Considero até grosseiro chamar os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) num momento desses para ir jantar.

Isso é coisa de “republiqueta” latino-americana que está ultrapassada. Mostra a fragilidade, a falta de postura. Quem tem cargos precisa respeitar a liturgia, que não pode ser quebrada.

DC – O senhor ficou surpreso com o Zé Dirceu e outros líderes do PT estarem na cadeia hoje?

Me deixa constrangido. Um partido que mantém dois tesoureiros e deixa essa quadrilha solta é inadmissível. Eu não entendo pessoas que ousam defender uma situação dessas. A melhor prática para reconstrução da vida partidária é ir nas causas e não nos efeitos.

Há um impasse, as redes socias estão ativas, mas não substituem os partidos políticos. Eles são necessários e precisam ser construídos.

Falam de fidelidade. Eu não entendo quem pode permanecer fiel a um partido de ladrões, que tem um presidente que está na cadeia com tornozeleira. Não há lei moral que obrigue o cara a permanecer em um partido.

Tem que começar a praticar internamente essa faxina. É como o batedor de carteira, o ladrão de picolé, o passador de cheque sem fundo, com processo protegido no tribunal. Isso é uma vergonha. Como vamos construir um país decente assim? E temos que reconhecer que nosso sistema penal é ruim e a Justiça ainda não chegou aonde nós desejaríamos que chegasse.
 
DC – PT, PMDB, PP, entre outros, estão envolvidos na onda de corrupção. O modelo partidário brasileiro está falido?

Não está falido, porque o brasileiro construiu uma democracia estranha. Teremos que cortar essas barbaridades, o poder legislativo tem que deixar a leniência do modelo. Vai ser doloroso repaginar o papel do poder legislativo no Brasil. Vão ter que voltar para aquilo que era sua essência, não pode distribuir verbas, circos, homenagens.

Fale-nos sobre a Aliança Social Trabalhista, fruto da parceria do senhor com o então governador Esperidião Amin. O que pretendia de fato? Qual o objetivo do projeto político? Fizemos juntos a campanha das Diretas Já. O que queríamos e o que mobilizou a opinião pública era garantir o direito da população escolher de maneira direta o presidente da República.

Lembro que foi a maior das mobilizações populares na história brasileira. Eu cansei de dizer que eleição indireta era imoral, ilegal, injusta. Como arranjar para eleger um presidente que não era nem o nosso, era presidente do sistema autoritário.

O maior erro histórico foi o colégio eleitoral. Eu deixei de ser Ministro da Saúde por não ter ido ao colégio eleitoral. Eu era vice-presidente do Senado, que era o cargo mais alto que a oposição podia chegar.

Para não dizer que estava com medo, fui à sessão, estava na mesa, ouvi o discurso do Tancredo (Neves) e do (Paulo) Maluf. Quando começou a votação, eu fui o quarto a ser chamado pra votar. Então, me levantei e me retirei em protesto. Isto me custou a carreira.

O senhor lidou com grandes lideranças na época. Hoje o maior problema é a falta de líderes políticos?

Há realmente uma certa insatisfação com a postura dos políticos. Aqueles que eu escolheria como grandes lideranças estão muito longe. Muitos se afastaram da vida pública. Qual a pessoa de bem que quer entrar nesta confusão?

Isso é o que há de mais grave no processo, até porque há também uma campanha sórdida, manipulada, tentando denegrir a honra das pessoas.

Quem entra hoje na política está sob alta taxa de risco. Esse denuncismo barato e safado tem que ser combatido. Tem gente que é do bem, que acredita em prestar serviço ao país, mas não pode expor seu nome, a honra da família nesse processo de redes sociais, com desonestos intelectuais. Eles não leem direito o que escrevemos, não interpretam e colocam o cara como um marginal.

DC – Seria melhor a renúncia, a cassação ou respeitar o mandato de Dilma?

Temos que ter respeito pela legalidade, para que as instituições funcionem. Agora, ladrão é ladrão, responsável por roubo tem que pagar. A lei diz que as pessoas que protegem ladrões têm que ser punidas. A Constituição tem lei demais, não precisa inventar novidade.

Se tiver que tirar a Dilma por ilegalidade que ela tenha feito, tem que tirar. O país não pode viver de jeitinhos. Que se cumpra a lei, ou nunca teremos um país sério. Se ficar comprovado que ela foi responsável, conivente, que se tire e convoque as eleições. Se for necessário, ocupe o cargo quem tiver que ocupar.

Não pode é mistificar, enganar, iludir, manipular, chamando de golpista quem quer o cumprimento da lei. Particularmente, tenho minhas vontades. Acho que ela perdeu condições de ser presidente há muito tempo.

DC – Qual a explicação da maior votação que o presidenciável Aécio Neves, do PSDB, teve aqui na última eleição?

Essa é uma homenagem válida ao povo catarinense, que deve estar com vergonha da administração que tem. Não adianta gastar dinheiro com publicidade porque, se aparecerem candidatos decentes, vamos mudar a política catarinense. Está na hora de quebrar esse circuito de interesses aí. Estamos com as nossas estradas, as ferrovias, os aeroportos, a saúde pública e a educação tudo por fazer em Santa Catarina.
 
DC – Algum fato marcante em sua vida?

O que tem me deixado muito feliz são os gestos de reconhecimento das pessoas: um telegrama, uma nota no Facebook, o respeito que tem por mim. Eu acho que o maior prêmio que um homem público pode ter é ser olhado com respeito. Eu acho que sou respeitado. Podem discordar da minha agressividade, mas eu não desonrei os mandatos. O catarinense tem do que se orgulhar.

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