Vídeo: A história de Dulce Lee, a primeira fotógrafa brasileira da Fórmula-1 - Esporte - O Sol Diário
 

Especial13/11/2015 | 07h01

Vídeo: A história de Dulce Lee, a primeira fotógrafa brasileira da Fórmula-1

Mulher de coragem e talento, a paulista que hoje mora em Florianópolis desbravou a modalidade



Dulce Lee foi um talento brasileiro na Fórmula-1. Não pilotava como as lendas de sua época, Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet, mas chamava atenção fora das pistas. Uma brasileira que revolucionou os bastidores, passou como um furacão que mudou a linguagem fotográfica, rompeu preconceitos com as mulheres num meio machista e ditou moda nos bastidores. Dulce venceu sua competição particular, encantou e... Tão rápido como os carros, mudou o curso de sua história. Paulista, hoje mora em Florianópolis, não gosta de ter sua privacidade invadida, mas aceitou, pela primeira vez, contar sua incrível história.

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A revolução tecnológica e talento andam juntas com a Fórmula-1. Na época romântica deste esporte, a velocidade ditava a adrenalina em competições mais humanizadas. Se dentro das pistas tudo mudou, com o talento sendo engolido por carros e motores surreais, o circo da F-1 acompanhou este novo ciclo também nas coberturas esportivas. Antes, os cliques que eternizavam momentos ganharam novas cores quando uma brasileira impôs um novo estilo.

Dulce Lee escolheu trazer para o automobilismo brasileiro e mundial um toque inspirado na beleza da mulher, com suas cores, atitudes, ousadia, charme e um olhar sempre diferenciado. Na década de 1960, quando o esporte ainda engatinhava para o profissionalismo, Dulce Lee chegou para sacudir o coreto.

O amor e o desafio imperam numa vida dedicada a extravasar o que vê e sente ao seu redor. Dulce lembra de cada foto como se fosse hoje e, pelo brilho do seu olhar, foram momentos intensos e registrados em fotografias que traziam uma visão encantadora para o esporte dominado pela alta velocidade.

Mas Dulce largou sua paixão pelos carrinhos voadores e a vida agitada ao redor do globo, para cultivar outro sonho: mudou-se para Florianópolis, onde começou outra missão. Trocou a fotografia pela pintura e atualmente vive cercada pela mãe natureza, que dá para ela o suprimento para alimentar suas pinturas.

No relato, dá para sentir o cheiro do combustível

Dulce é daquelas pessoas que cativa e conquista com o olhar. Justamente o foco que durante décadas registrou o começo de uma era do automobilismo. Uma mira aguçada por novidades e sedenta por cores. Ao relembrar das corridas e das histórias, chega-se a sentir o cheiro de combustível e de borracha queimada nas largadas.

Sofreu preconceito e discriminação no começo. Com o tempo, reverteu a situação com todo o seu gingado. Ganhou respeito e ditou moda. Acompanhou o começo e a evolução dos principais pilotos brasileiros como Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet. Misturava as tradicionais técnicas de fotografia com filme com o uso do "repronart", técnica aplicada nos antigos ampliadores. Uma revolução para a época nas coberturas do automobilismo.

O mais experiente "photoshopista" de hoje teria dificuldades em chegar próximo de sua técnica repleta de composições intensas, cores, sombra e uma luz diferenciada. Amiga de praticamente todos os pilotos, foi casada com um deles, Anísio Campos, também maior desenhista de automóveis do Brasil. Participou da lendária equipe Holywood no início dos anos 1970, como fotógrafa oficial. Venceram tudo que participaram.

Suas fotos são um primor. Parecem pinturas.

Dulce amava as corridas, os carros, os pilotos. Usava chapéus e colares diferentes. Começou a fotografar quando trabalhava num hospital, aí pintou um convite do médico Daniel Ribas depois de trabalhar como voluntária no primeiro transplante de fígado no Brasil. Partiram para fotografar as "moças de ouro" da avenida São João em São Paulo. Não parou mais! Foi laboratorista, produtora, trabalhou em agências de publicidade e depois de quatro anos, estava pronta.



Entrou no circo do automobilismo e conheceu o seu amor. Sempre teve o trabalho como forma de arte. É assim que ela enxerga a vida como uma obra.

– Meus colegas de profissão achavam um absurdo estar na F-1. Na verdade, não tinha mulher fotografando nas pistas. Fui boicotada e em determinadas situações quase apanhei. Com o tempo fui ganhando respeito e tudo mudou – comenta, de forma humilde.

Conta que as corridas eram um desafio e existia uma solidariedade entre todos. Era uma barganha de favores. A competição era saudável e não para ganhar dinheiro.

Acompanhou peça por peça a construção do FD01 da Copersucar, primeiro carro brasileiro a disputar uma prova de Fórmula-1, em 1975. Não tem para ela a melhor foto. Todas foram especiais, cada uma tem seu momento.

– Temos que aprender a dançar com a música da tempestade. Tudo que se faz com amor e com fé vinga – ensina.

Perdeu o tesão em fotografar corridas depois que o esporte que mais ama mudou com a entrada de grandes empresas e patrocinadores de ponta. Não tinha mais vínculo em São Paulo quando os pais faleceram. Presenciou um assalto quando levava seu filho para a escola e foi a gota d'água para largar tudo e partir com seu menino, na época com sete anos, e seus dois cachorros para Florianópolis. Morou de aluguel numa casa no Pântano do Sul até encontrar o lugar que mudaria tudo em sua vida.

Se encantou com um terreno no morro da Costa de Cima, no extremo Sul da Ilha. Em 24 de junho 1991, transformou um antigo engenho com uma casa de pau a pique num verdadeiro santuário. Plantou oito mil pés de árvores frutíferas. Uma nova vida num local onde ela mesmo afirma ter sido mandada por Deus para cumprir uma outra missão. Trocou o barulho dos motores a todo vapor pela tranquilidade dos encantos da natureza.

Sua vida sempre foi marcada por desafios. Prefere viver intensamente cada dia como se fosse o último.

– Quando subi o morro vi a riqueza do local e disse que não poderia deixar isso morrer. Pensei toda a reforma para que ficasse do jeito que é atualmente.

Apaixonada por orquídeas, fez um orquidário com dois mil vasos. Chegou a fazer alguns trabalhos para pessoas da comunidade e mulheres grávidas.

Ainda inquieta, faltava algo.

– Passava todo meu arquivo no meu subconsciente. Cores, os movimentos, a velocidade e as histórias. Uma energia muito forte que tinha que extravasar.



Comprou as telas e tudo surgiu de repente. Intuitiva e perceptiva entendeu que encerrava uma era e iniciava outra.

– Os quadros surgiam na minha frente, algo que tinha sonhado. Algo muito espiritual. A pintura vem de uma energia muito maior. Eu era obrigada a explodir os slides que passavam em minha cabeça. Não sei desenhar um gatinho. Jogo uma lata de tinta e começo a ver o que vai surgir. A tinta começa a fazer o que deseja e depois eu intervenho.



Para não perder o vínculo com o automobilismo, a tinta que usa é a mesma usada para pintar carros.

– Adoro o cheiro desta tinta – revela, junto à uma gostosa gargalhada.

As cores são inspiradas na natureza que observa pela janela de seu aconchegante ateliê. É uma terapia para a paulista que se fundiu às tradições e costumes locais.

Não tem medo em viver sozinha. O mundo dela hoje é a sua casa. E que mundo! Se sente mais nativa do que nunca. Conhece os pássaros, as cobras, lagartos, papagaios, furões e chega a saber quando vai chover ou fazer sol. Aprendeu a ouvir o barulho da natureza e conviver com o silêncio.

Chegou falando cinco línguas que atualmente não fazem a menor falta. O que não presta, ela descarta.

Construiu e projetou a casa com os objetos do engenho. A subida para sua residência hoje é pavimentada com lajotas e parece uma pista de corrida. O cheiro delicioso de madeira chega a impregnar a roupa.

– Quando cheguei não existia nem acesso. Tinha até barbeiro. Levei muito tempo para deixar tudo como está. Não derrubei nenhuma árvore e consegui preservar tudo como desejava. Quando vi toda esta madeira de lei largada fiquei apavorada. Tinha peças jogadas no mato, como um tacho de cobre que uso agora no banheiro.

O passado, para Dulce, é história. A solidão é sua maior aliada. Prefere não ter contato com as pessoas que conheceu. Mantém a visão que ela guardou de todos.

– Eu sinto que tudo que sou faz jus a minha estrada. Eu sei que a minha criança está mais viva que a minha velhinha.

A comunicação com o mundo é mantida por um programa de rádio num canal pela internet, que faz todos os sábados.

– Eu ensino os meninos a trabalhar com música e aprendo com eles.

Paga para não sair de seu verdadeiro templo. Brinca que o sossego no local é tão grande que escuta a grama crescer. Mudou tanto que acredita que não iria sobreviver se voltasse para capital paulista. Para ela não tem preço, por exemplo, ver a lua, sentada na sua cadeira predileta, ao lado dos seus companheiros gigantes e inseparáveis, os cachorros Una e Gigabites.

Mantém amizades que preservam o respeito e consideração. Conheceu Driésse Monique Pereira Mafra, ainda com 15 anos. É praticamente seu braço direito, ou melhor, o corpo inteiro. Uma verdadeira filha que ganhou do universo.

– Me sinto uma filha. Até mais. Uma relação diferente do que tenho com a minha mãe. Ela foi um anjo colocado em minha vida – diz Drika, como é carinhosamente chamada por Dulce enquanto prepara um café na aconchegante cozinha em que cada janela tem seus temperos e ervas.

Sua recompensa e alimento diário é ver os filhos das pessoas que trabalharam na construção de sua casa gostarem de pintura e de manter as tradições locais.

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"Foi uma referência para mim", afirma Reginaldo Leme

A entrevista com Reginaldo Leme foi num sábado enquanto ia para o aniversário de um compadre. Ele começa a conversa com a lembrança de que sonhava em fazer parte da "turminha" que Dulce Lee vivia com Anísio Campos, Emerson Fittipaldi, entre outros.

Como Emerson, faz questão de apontar as dificuldades em correr naquela época. Ela era da galera cool, um dos ícones que desejava atingir no começo de sua carreira. Diz, em tom de admiração, que Dulce fez parte da equipe Hollywood, que trouxe carros altamente competitivos numa época em que os brasileiros ainda engatinhavam e tecnicamente estavam muito atrás.

– Linda, bonita, inteligente, convicta, charmosa e falava muito (brinca com uma gargalhada). Todos a idolatravam. Foi uma referência para mim, que começava minha trajetória no automobilismo. Eu era e ainda sou muito voltado para as reportagens que retratam o ser humano no automobilismo. Leme vê Dulce como uma das importantes precursoras numa forma de cobertura diferenciada, revolucionária, com sua técnica.

– Meu sonho era conviver com estes caras. Depois de 40 anos sou amigo de todos. Agora convivo com esta turminha > encerra, garantindo ter ficado muito feliz em falar sobre essa época.

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"As fotos dela são espetaculares", diz Emerson Fittipaldi

Depois de uma ansiosa espera para entrevistar uma verdadeira lenda viva do automobilismo mundial, Emerson Fittipaldi conversou por mais ou menos meia hora por telefone com reportagem do DC. Falou sobre o começo do automobilismo brasileiro, sua carreira e, claro, Dulce Lee. Lembra com muito carinho e saudosismo da época de ouro do esporte.

Emerson respira fundo ao falar sobre as mulheres da época romântica do automobilismo brasileiro. Sua voz fica mais suave ao recordar que sua mãe chegou a correr como amadora. O tricampeão mundial de Fórmula-1 conheceu Dulce Lee no fim dos anos 1960.

Para Emerson, ela era especial. Uma líder com personalidade forte e completamente apaixonada pelas corridas.

– As fotos dela são espetaculares. Convivia com os pilotos, com os engenheiros e com todos os envolvidos. Criou uma liderança e ditou moda ao seu redor.

O piloto do automobilismo puxa pela memória a época marcada por um esporte feito muito mais por paixão e por carros feitos na garagem de suas casas. Um esforço fora do comum em construir e desenvolver carros no Brasil, uma realidade que Dulce vivenciou e descreveu em suas imagens diferenciadas.

– Dentro daquelas circunstâncias, (os carros) eram feitos na improvisação. Era difícil. Aqui (no Brasil) era o piloto que tinha que se adaptar ao carro. Na Europa era o contrário. O carro que era feito conforme o piloto.

Emerson chegou a fabricar volantes na garagem de sua casa em São Paulo para ser patrocinado. Lembra de viajar para o Sul do Brasil com a família no fim da década de 1950 para convidar os pilotos a participar das lendárias Mil Milhas em novembro.

– Inclusive, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul vinham as carreteiras, carros muito evoluídos para a época, que nasceram nestas regiões, na Argentina e Uruguai.

Um dos momentos que guarda com muito carinho é a vitória na primeira corrida de Fórmula-1 no Brasil.

– Eu corria de moto pelas retas e curvas de Interlagos com 14 anos. Nunca imaginei, nem no meu melhor sonho, vencer com a Lotus e no ano seguinte com a McLaren. É muita emoção, com o público presente, com os amigos e com a família perto.

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