Sem limites: grupo se une para difundir o surfe adaptado em Santa Catarina - Esporte - O Sol Diário

Nossa Área10/09/2016 | 08h06Atualizada em 10/09/2016 | 08h07

Sem limites: grupo se une para difundir o surfe adaptado em Santa Catarina

A dificuldade motora, seja por problemas genéticos ou acidentes, não tirou o amor e a vontade de estar em cima de uma prancha de Bill, Fidel e mais uma turma

Sem limites: grupo se une para difundir o surfe adaptado em Santa Catarina Cristiano Estrela/Agencia RBS
Bill encabeça a história e espera uma vaga no mundial. Ele usa o braço esquerdo para ficar de pé na prancha Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

O maior medo de Bill e de Fidel era nunca mais conseguir ficar em pé sobre uma prancha no mar. O esporte é a vida deles. Seria mais traumático até que os acidentes que eles sofreram e que lhes tiraram o movimento de um dos braços. A luta foi dura, mas o momento em que conseguiram finalmente dropar na onda deu um norte e uma bandeira para a vida dos dois atletas: a do surfe adaptado.
 
Agora eles estão recrutando mais surfistas catarinenses com alguma limitação física. Os dois ainda pretendem participar do mundial de surfe adaptado que será disputado na Califórnia (EUA), no final do ano.

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Bill, apelido de Robson Gasperi, 32 anos, é o cabeça dessa história. Com o estereótipo típico dos surfistas das antigas, cabelo parafinado e pele torrada pelo sol, aparentando sempre estar de bem com a vida, se dedica ao esporte nas praias de Palmas, em Governador Celso Ramos, e na Mole, em Florianópolis. Conseguiu formar um grupo com mais sete surfistas. São três com lesão plexo braquial (que atinge os movimento dos braços), dois que tiveram paralisia infantil, uma atleta com pseudartrose (um osso falso na perna esquerda) e outra que usa uma prótese interna de quadril.

Bill era salva-vidas civil na praia dos Ingleses. Tinha recém-passado num concurso dos Bombeiros para ser guarda-vidas militar. Lembra exatamente a data em que se acidentou: 17 de dezembro de 2012. Naquele dia tinha feito oito salvamentos, inclusive o de uma criança que estava perdida, enquanto já escurecia. Salvou ela no fundo do mar.

– Voltando depois desse salvamento de moto, pela SC-403, um cara fez o retorno na contramão no trevo de Cacupé e me atropelou. Quebrei o úmero e sofri uma lesão de plexobraquial. Fiquei muito depressivo. Eu era um atleta saudável. Com a deficiência as pessoas não te recebem mais da mesma forma. Tu acaba ficando com preconceito de si mesmo. E então eu vi um filme sobre uma surfista havaiana, a Bethany Hamilton. Um tubarão comeu um braço dela. E aquele filme mostrou o retorno dela no surfe – conta.

Bethany inclusive já esteve em Florianópolis. Foi em 2010, quando participou do Billabong Ladies Pro, no Santinho. Só que mesmo com a inspiração Bill não tinha sucesso. Tentou outros esportes como bodyboard e bodysurfing (o famoso jacaré), mas não fizeram a cabeça dele. Foi com uma prancha gun, de pegar onda grande, que ele retornou.

– Como eu era salva-vidas, me arriscava mais, então eu fui, mesmo como uma mão só. Entrei, peguei a parede, fiquei em pé e dei uma passada na onda. Pronto, voltou toda aquela lembrança de surfar quando eu era pequeno – recorda.

Fidel coloca o braço dentro do long para surfar Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

¿Nem que tenha que cortar meu braço¿

Foi no mar que Bill e Fidel Teixeira se conheceram. Os dois têm histórias bem parecidas. Fidel, 38 anos, também perdeu o movimento de um dos braços após um acidente de moto, em 2007. Ele foi fechado por um caminhão. Teve traumatismo craniano, fraturas expostas e a lesão de plexo braquial.

– Nessa época eu já surfava, andava de skate, fazia capoeira. Foi triste entender o que aconteceu. Eu ouvi do médico que eu não ia mais surfar, que seria muito difícil a recuperação. Mas naquele momento eu falei pra ele que eu ia dar um jeito, nem que tivesse que cortar fora meu braço. Mas o surfe é uma coisa que, quando o cara fica em pé na prancha, é pro resto da vida – reforça o paulista que há 12 anos fixou residência na Ilha.

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Ao contrário de Bill, Fidel preferiu costurar o long (roupa de borracha) e deixar o braço debilitado dentro da roupa. Os primeiros drops (descer a onda) foram deitados, com ajuda de um amigo, e foi assim que ele conseguiu voltar. Garante que hoje surfa melhor do que antes da lesão.

– Surgiram competições esse ano, e o Bill me incentivou a participar. A gente está querendo trazer a galera para a praia. O grupo está de portas abertas para pessoas dispostas a criar esse movimento. Através do surfe, a gente consegue resgatar pessoas que estão tristes, sem ver um horizonte – convoca o atleta.

Já existem campeonatos onde eles competem. Em 2016 a categoria adaptada entrou no Circuito Catarinense. As associações locais fizeram etapas no Farol de Santa Marta, Balneário Camboriú e na Joaquina. A Federação Catarinense de Surf (Fecasurf) já incluiu a categoria para surdos de 2012 a 2014. Daqui pra frente, o presidente da entidade, Reiginaldo Ferreira, garante que irá fomentar ainda mais a modalidade, já que o esporte estará na Olimpíada de Tóquio 2020, e se espera que também esteja na Paralimpíada.

Mari Cardoso, que é paratleta de handebol, ama a sensação de estar no mar Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

Ela só precisa de um empurrãozinho

A primeira mulher do surfe adaptado de SC é a paratleta Mari Cardoso, de Criciúma. Apesar de ter nascido com doenças de nomes que assustam, pseudartrose e neurofibromatose (que aumenta o risco de câncer), isso não a impediu de ter uma vida dedicada ao esporte. Ela é tricampeã brasileira de handebol em cadeira de rodas, de 2012 a 2014, e também já praticou caratê.

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Desde o ano passado focou somente no atletismo com vista à Paralimpíada do Rio. Ela está entre as três primeiras do Brasil no lançamento de disco. Porém, não conseguiu se classificar. É através do paratletismo que ganha uma bolsa atleta do governo federal e outra por Criciúma.

Mari fez tratamento desde o nascimento até os 20 anos, andou de cadeira de rodas e de bengala. Teve épocas em que não conseguia sair da cama. Logo que estabilizou, descobriu que tinha câncer. Precisou fazer uma cirurgia e retirou uma parte da perna. Por sorte, não precisou amputar. Ela usa uma órtese, um aparelho plástico que reveste, fixa e protege a perna. Anda normalmente com a órtese, mas fica muito limitada sem ela. Ao contrário do demais, Mari caiu de paraquedas na prancha de surfe.

– Eu conheci um grupo de meninas surfistas na internet e elas me incentivaram bastante a começar no surfe adaptado. Sempre gostei muito, tenho prancha há muitos anos, só que eu não sabia surfar porque não tinha ninguém pra me auxiliar. E agora, desde que conheci o pessoal que me incentivou, eu não larguei mais. Surfo até no inverno – destaca a atleta.

Fidel, o surfista cristão Rodrigo Gonçalves, que teve paralisia infantil, e Mari Cardoso em dia de surfe na Mole Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

"Me encontrei com Deus"

O empresário Rodrigo Gonçalves, 32 anos, teve paralisia infantil aos três. A doença deixou uma perna muito mais fina do que a outra. Mas ele garante que isso nunca o atrapalhou. Pelo contrário, diz que era o mais encapetado da vizinhança, em Goiânia.

Numa consulta com um ortopedista, foi orientado a parar de jogar futebol e entrar na natação, onde começou a competir. Das piscinas para o mar foi uma braçada. Nunca imaginou pegar onda, mas quando passou em um concurso público em Florianópolis comprou uma prancha adaptada.

– Eu estava no mar depois de dois anos tentando pegar onda, curtia andar com a prancha embaixo do braço e tirar foto. Tem uma gíria no surfe que fala ¿valeu a remada¿, porque sempre vale estar em contato com o sol e a água. Um dia com minha pranchinha eu orei: ¿Deus, eu nunca reclamei de nada na vida, mas hoje eu vou reclamar. Eu quero surfar¿. E quando eu fui sincero com Deus, o Espírito Santo deu um mergulho dentro de mim. Veio uma onda gigante e eu pensei: ¿é essa¿. Levei um caldo, mas valeu a remada. Eu saí com uma energia e uma semana depois toda onda que eu pegava eu surfava – relata o surfista cristão.

Uma das pessoas que entrou para esse movimento é a psicóloga Ruthie Bonan Gomes, 26. Ela é mestranda em psicologia social na UFSC e trabalha com deficiência e inclusão. Ela frequenta os mesmos ambientes dos surfistas e notou que não se debatia essa questão. 

– Assim como uma pessoa sem deficiência gosta de estar no mar surfando, uma pessoa com deficiência também gostaria desse prazer e precisa de acessibilidade para isso. É uma questão oportunidade para que elas consigam ter acesso, e aí a deficiência não vai fazer diferença.

Fidel dropa e encara uma esquerdinha na Praia Mole, em Florianópolis Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

Santa Catarina no mundial de surfe adaptado

Os surfistas adaptados catarinenses pretendem abrir uma ONG semelhante à Adaptsurf, do Rio de Janeiro. A entidade carioca é referência no trabalho de inclusão de pessoas com mobilidade reduzida nas praias do Rio. A organização indicou nomes que foram para o primeiro mundial de surfe adaptado, disputado em La Jolla, na Califórnia. O torneio teve a participação de 69 atletas de 18 países. O Brasil conquistou três medalhas, uma de cada cor.

Para o final deste ano, a expectativa é que as etapas locais que irão definir o campeão catarinense possam dar vagas à equipe brasileira que irá para os Estados Unidos. A competição adaptada é dividida em seis categorias. Bill e Fidel estariam incluídos na AS-1.

– Estou batalhando, já tirei o passaporte, vou trabalhar pelo visto junto a Fecasurf e ir atrás de patrocínio para estar na Califórnia no final do ano e quem sabe trazer esse título para Santa Catarina – espera Bill, enquanto aguarda a Confederação Brasileira de Surf divulgar a lista com os atletas classificados para o evento.

Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

As categorias

::: AS-1 — amputados abaixo do joelho e em membros superiores
::: AS-2 — amputados acima do joelho
::: Assist — que necessitam de ajuda para apanhar as ondas

Deficientes visuais

::: Prone — que surfam deitados
::: Upright — caiaque

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