Professores de áreas como Física e Matemática estão em extinção - O Sol Diário
 
 

Educação em crise16/09/2012 | 16h46

Professores de áreas como Física e Matemática estão em extinção

Mesmo com oferta e bolsas de estudo, não há interessados em cursar as licenciaturas

Professores de áreas como Física e Matemática estão em extinção Rafaela Martins/Agencia RBS
Em 10 anos, professor Aloir Manenti conseguiu convencer só três ex-alunos a se graduarem em Física Foto: Rafaela Martins / Agencia RBS

Nesta segunda-feira a secretaria de Educação de Itajaí abrirá nova chamada pública para a convocação de professores de Geografia e Matemática. Uma chamada foi aberta para essas disciplinas na quinta-feira passada, mas não houve interessados. A Univali não consegue fechar turmas para os cursos de História e Matemática e prorrogou as inscrições também até esta segunda. Esses são exemplos claros do que há alguns anos os profissionais da área vem alarmando: a falta de jovens interessados em lecionar está causando uma verdadeira crise nas licenciaturas.

Educadores atribuem o desinteresse aos baixos salários dos professores, ao estresse da profissão e à dificuldade intelectual de alguns cursos de graduação. Mas o que todos concordam é que nos próximos anos a falta de professores será ainda mais significativa e as escolas passarão a disputar os profissionais que restarem.

Professor de física e biologia há 29 anos, Aloir Manenti, 47, sempre incentiva os alunos que apresentam facilidade com Ciências Exatas a cursar uma graduação de licenciatura na área. Mas nos últimos 10 anos os esforços fizeram com que apenas três ex-alunos se graduassem em Física, sendo que todos já estavam devidamente empregados antes mesmo da formatura. Ainda assim, a maioria dos jovens opta por outras áreas, como a engenharia.

- Só que se não tivermos professores de Física e Matemática quem vai dar aulas para os engenheiros? Este pessoal que ingressa na Física ou na Matemática tem até que se recusar a dar aula - explica.

Manenti diz ainda que constantemente recebe informativos de convocações para dar aulas e simplesmente não há quantidade suficiente de inscritos. O educador acredita que, daqui a cinco anos, a quantidade de professores de algumas especialidades será ainda mais reduzida, o que fará com que esses especialistas sejam contratados a peso de ouro.

- Hoje os bons professores já dão aulas em vários colégios. Daqui para a frente a tendência é que haja ainda menos professores.

Coordenadora do curso de História da Univali, Ilisabet Prade Krames, tem a mesma opinião. Ela acredita que dentro dos próximos anos o país sofrerá o chamado apagão das licenciaturas. Muito disso se deve ao salário do professor, que hoje, para quem está iniciando, não é tão atrativo. Mas Ilisabet também destaca que alguns discursos tem afugentado o jovem dessa área.

- Vemos na mídia casos de professores agredidos, crise na educação. Toda essa crise é real, mas não é só isso que ocorre na educação. Também temos coisas boas -  afirma.

Além de tudo, as graduações da área de exatas apresentam uma dificuldade maior para a maioria das pessoas. Então, segundo ela, o estudante pensa duas vezes antes de investir dedicação e esforço num curso como o de Matemática, por exemplo. Mesmo assim, os acadêmicos que hoje fazem o curso semipresencial da área na Univali estão todos empregados e até recusando dar aulas particulares, segundo a professora.

Nem oferta de bolsa tem atraído alunos

As turmas para os cursos de História e Matemática da Univali, que tiveram as inscrições prorrogadas, seriam as primeiras com aulas 100% presenciais. O prazo havia se esgotado no início da semana passada, mas o número mínimo de 40 alunos não foi preenchido. Nem mesmo a oferta de bolsa de 50% e a possibilidade de um estágio de quatro horas semanais que custearia o valor integral do curso está chamando a atenção de quem busca uma graduação.

As vagas são para pessoas que tenham renda per capta de no máximo três salários mínimos e não estejam cursando outra graduação. Assim, o estudante já ingressaria pagando metade do valor. No caso de Matemática, a mensalidade integral para 24 créditos custa R$ 674,16 e sairia por R$ 337,08.

Além disso, a universidade possuiu 40 bolsas de estágio para quem fizer matrícula em um dos dois cursos. O trabalho de quatro horas semanais consiste em acompanhar um professor da rede pública em sala de aula. Para isso o estudante recebe R$ 400 mensais.

- Para o aluno que se matricular nesses cursos hoje ainda sobraria mais de R$ 60, mas mesmo assim a procura é pequeno e se não fecharmos turma, não teremos esses cursos agora - explica.

Até quinta-feira da semana passada Matemática tinha recebido a inscrição de cerca de 10 pessoas que preenchiam o pré-requisito do edital. Por conta da baixa procura, no ano que vem a universidade pode passar a ofertar o curso sem a bolsa filantropia, o que permitiria que pessoas com condição financeira mais favorável ingressem. Mas de qualquer modo, sem o número mínimo de 40 alunos é inviável para a universidade bancar as despesas da graduação.

Escassez é um problema antigo

A gerente de Educação da Secretaria de Desenvolvimento Regional de Itajaí, Clenira Tivatto, explica que apesar de não existir falta de professores na rede estadual da região hoje, a dificuldade de encontrar educadores de algumas áreas já vem há pelo menos oito anos. Além das Ciências Exatas, também é difícil encontrar professor para as disciplinas de Biologia, Inglês, Português e Espanhol. Um dos motivos para isso, segundo ela, é o grau de dificuldade das graduações.

- Temos poucos habilitados em Química e Física. O Estado oferece a graduação, se você faz Matemática se habilita em Física e Química, mas falta interesse dos professores.

Atualmente, o salário base do Estado para o professor não habilitado, ou que está cursando graduação - que pode dar aulas especializadas se dominar o conteúdo - é de R$ 1.450. Esse valor praticamente dobra quando o professor tem graduação, segundo Clenira. Na rede municipal de Itajaí o piso é de R$ 1.818 para educador graduado e chega a R$ 2.818,87 com as gratificações, por 40 horas semanais. O Sindicato das Escolas Particulares de Santa Catarina (Sinepe) não revela o salário base na educação privada, mas a assessora pedagógica Rosimar Oldra Pagliosa adianta que Santa Catarina tem um dos melhores pisos do Estado.

Mesmo assim, as escolas privadas também não encontram profissionais com facilidade. Um dos possíveis motivos para isso é que muitos estudantes estão optando pelos bacharelados, segundo Rosimar, ao invés das licenciaturas. Em função da falta de incentivo e dos salários nem sempre atraentes, a mão de obras dos jovens está sendo absorvida pela indústria e por áreas que apresentem uma maior possibilidade de crescimento.

Outro complicador da profissão de professor é a indisciplina dos alunos. A diretora de gestão de pessoas da secretaria de Educação de Itajaí, Rozilda da Silva Luis, explica que esse é um dos aspectos que mais tem desmotivado os educadores. Professora de matemática há 10 anos, Jucimar Mattos da Silva, 43, conta que muitos alunos tem problemas familiares e transferem isso em forma de agressividade para o educador.

- Enquanto não mudar essa cultura e os pais passarem a educar os filhos, a vida do professor vai continuar estressante - garante.

O Sol Diário
Busca