Poluição causa morte de peixes em rio no limite entre Itapema e Porto Belo, no Litoral Norte - O Sol Diário
 
 

07/01/2013 | 21h09

Poluição causa morte de peixes em rio no limite entre Itapema e Porto Belo, no Litoral Norte

Fundação ambiental de Itapema multou empresa de esgoto da cidade em R$ 500 mil

Poluição causa morte de peixes em rio no limite entre Itapema e Porto Belo, no Litoral Norte Rafaela Martins/Agencia RBS
Peixes mortos começaram a aparecer no rio no domingo Foto: Rafaela Martins / Agencia RBS

Centenas de peixes apareceram mortos, nesta segunda-feira, no Rio Perequê, que divide as cidades de Itapema e Porto Belo. A mortandade, que começou a ser registrada no domingo, pode estar ligada a indícios de poluição que apareceram no rio nos últimos dias. A Fundação Ambiental Área Costeira de Itapema (Faaci) acredita em derramamento de esgoto não tratado no Rio da Fita, que desemboca no Perequê. Ontem, o órgão multou em R$ 500 mil a empresa Águas de Itapema, responsável pelo tratamento de esgoto na cidade. Em nota, a Águas de Itapema informou que a situação está sendo avaliada por técnicos e que a estação de tratamento está em operação. Mas não confirmou o vazamento de esgoto, algo que é contestado por moradores e turistas às margens do Perequê. — A água chegou a ficar tão escura que parecia petróleo, e o cheiro estava insuportável. A situação só melhorou porque choveu. Aí, começaram a aparecer os peixes mortos — diz Maria Luzia Godoy Gandia, administradora de uma marina que fica junto ao Rio Perequê. A mortandade atingiu espécies como tainhotas, bagres e escrivãos. Os peixes, que desceram o rio, surgiram nas margens e na areia das praias de Perequê e Meia Praia. Somente no domingo, guarda-vidas do Perequê atenderam pelo menos dez pessoas feridas pelo ferrão de pequenos bagres que se acumulavam na beira da praia, sobre a areia. A reclamação dos turistas fez comerciantes como Damásia da Luz, 42, que atende em um quiosque em Perequê, providenciarem a limpeza por conta própria. Pela manhã, o cunhado dela recolheu dois baldes repletos de peixes mortos. Turista de Curitiba (PR), Renato Cardoso, 30, voltou assustado de um passeio de jet ski na manhã de ontem. — Faz 10 anos que frequento a praia e nunca vi tantos peixes mortos. Faz dias que percebo diferença na cor da água, parece que o problema está na foz — afirma.

Esgoto clandestino

Para a Polícia Militar Ambiental, que investiga a poluição do Rio Perequê desde sexta-feira, embora a cor e o cheio da água apontem para uma possível contaminação por esgoto, não está claro se a fonte é ou não a estação de tratamento da Águas de Itapema. — Verificamos que havia sinal de contaminação da ponte da BR-101 para baixo, mas a estação fica rio acima — disse o tenente Ênio Sérgio Nedochetko. A intenção dele é montar uma força-tarefa para identificar com exatidão a fonte poluidora. Segundo o policial, é possível que se trate de esgoto clandestino — hipótese descartada pelo presidente da Faaci, Leonardo Nunes. — Nem todas as ligações clandestinas que se possa identificar causariam o dano que ocorreu — acredita. A multa pela poluição do Rio Perequê não foi a única emitida pela Faaci à Águas de Itapema ontem. A empresa também foi autuada em R$ 75 mil pelo despejo de esgoto na Meia Praia no domingo, na altura da Rua 205. O problema teria sido causado por uma pane elétrica no sistema e já foi solucionado.

Análise da Fatma revelará volume da poluição
 
A situação do Rio Perequê está sendo acompanhada de perto pela Fundação do Meio Ambiente do Estado (Fatma). Técnicos estiveram no local na sexta-feira e fizeram coleta da água, que foi enviada para análise. A expectativa é que o laudo seja divulgado até o final da semana.
Se os resultados revelarem dano ambiental por despejo de esgoto, a Águas de Itapema poderá ser multada. Neste caso, será a segunda autuação da Águas de Itapema pela Fatma em menos de um mês.
O órgão ambiental informou que, em dezembro, emitiu um auto de infração à empresa por falta de licença de operação, disposição e armazenagem irregular de resíduos, presença de animais e efluentes finais que não atendem à legislação. O valor está em análise de comissões e ainda não foi estabelecido.
A Águas de Itapema pode recorrer da autuação. A empresa informou, através da assessoria de imprensa, que vai contestar a notificação.
 
Denúncias chegam ao Ministério Público
 
A assessoria da promotora Carla Mara Pinheiro Miranda, de Itapema, informou ontem que recebeu denúncias durante a tarde sobre a poluição e a mortandade de peixes no Rio Perequê. A promotoria aguarda um relatório da Fundação Ambiental Área Costeira de Itapema (Faaci) para determinar o que será feito.
Uma ação civil pública, instaurada em 2010, investiga a capacidade do rio em receber efluentes de esgoto. Uma perícia, solicitada pelo Ministério Público, foi feita com auxílio de órgãos ambientais no dia 18 de dezembro, e a promotoria ainda aguarda os resultados. A intenção do MP é garantir a eficiência do sistema de tratamento do esgoto e evitar a poluição do Rio Perequê.
A prefeitura de Porto Belo informou que também pretende enviar o laudo técnico que está sendo produzido pela Fatma ao MP. A Fundação Municipal do Meio Ambiente informou, em nota, que o rio é alvo de poluição crônica há pelo menos quatro anos, devido ao despejo de esgoto sem tratamento — o que prejudicou a balneabilidade das praias de Perequê e Meia Praia.
 
Peixes morrem por falta de oxigênio
 
A morte dos peixes no Rio Perequê pode estar ligada à falta de oxigênio. A informação é do doutor em Aquicultura Gilberto Caetano Manzoni, professor nos cursos de Oceanografia e Ciências Biológicas da Univali.
Ele explica que, de maneira geral, um derramamento de esgoto em um rio causa excesso de nutrientes na água — o que provoca a proliferação de algas. Mais algas significam maior consumo de oxigênio e, portanto, menos oxigênio disponível para os peixes.
A situação é agravada pelo calor, que diminui naturalmente o nível de oxigênio na água. O que chama a atenção do especialista, porém, é a presença de bagres entre os animais mortos:
— O bagre é uma espécie resistente a condições ambientais adversas — comenta.
Manzoni alerta para o despreparo dos municípios do Litoral, que têm aumento populacional durante o verão, em relação ao saneamento básico — essencial, segundo ele, para evitar problemas como o do Rio Perequê.
Como a maioria dos peixes mortos era jovem, pode haver impacto nas populações dos animais, o que deve afetar a pesca na região.

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