Drauzio Varella: "Não há solução para o sistema prisional brasileiro" - O Sol Diário

Entrevista22/06/2017 | 16h12Atualizada em 22/06/2017 | 17h59

Drauzio Varella: "Não há solução para o sistema prisional brasileiro"

Médico fala sobre saúde, vacinação e sistema prisional

Drauzio Varella: "Não há solução para o sistema prisional brasileiro" Fabio Grison/Divulgação
Foto: Fabio Grison / Divulgação

O jeito didático de lidar com os complexos temas da medicina tornaram o médico Drauzio Varella famoso em todo o país. Mas saúde não é sua única especialidade. O trabalho que exerce voluntariamente nas prisões de São Paulo lhe renderam o respeito de movimentos em prol dos direitos humanos e um prêmio Jabuti de literatura, depois que ele decidiu contar suas histórias.

Seu livro mais recente, Prisioneiras, lançado em maio deste ano, completa a trilogia que começou com Estação Carandiru, em 1999, e continuou com Carcereiros, em 2012. 

Em Balneário Camboriú, onde palestrou sobre saúde e qualidade de vida a convite do Instituto de Educação Corporativa (IEDUC), o médico concedeu entrevista em que fala sobre prevenção, saúde no inverno, a polêmica recusa dos pais em vacinarem seus filhos _ e, é claro, sobre o sistema prisional brasileiro.

Foi acertada a decisão de estender a vacinação do HPV para os meninos?Acertadíssima. Quem transmite o HPV para as mulheres são os homens. Num primeiro momento vacinamos as meninas, que são o público-alvo. Tem muito mais tumores induzidos por HPV em meninas, em mulheres, do que em homens. Mas à medida que a vacina foi aceita, que acabou aquela onda inicial que houve contra a vacina, agora tem que vacinar os meninos também. Porque esses tumores de colo de útero, de pênis, de vulva, eles praticamente desaparecem com a vacinação. A hora em que tivermos uma geração de meninos e meninas brasileiros vacinados, esses tumores vão desaparecer.

O que o senhor pensa sobre a onde de recusa dos pais em vacinarem os filhos?
É um absurdo. O que acontece com a vacina agora é consequência do sucesso da vacinação. No passado, tinha poliomielite em todo lugar, na escola, nas ruas, tinha aquelas crianças com as próteses. Os pais viviam apavorados. Uma criança que tinha febre, ficava meio derrubadinha, era um desespero, porque achavam que era a poliomielite que estava começando. Quando surgiu a vacina, voou todo mundo para vacinar os filhos. Aí acabou a poliomielite no Brasil, não se vê mais. E as pessoas não levam mais a sério. Essa geração agora que já foi vacinada nunca ouviu falar em poliomielite, nunca viram um caso. E acabam relaxando, achando que não vale a pena vacinar.



Isso já é um problema de saúde pública?
É, porque essas doenças não desapareceram. Num mundo como nós temos hoje, em que as pessoas viajam, vão para lá e para cá, esses vírus voltam a circular. E aí pegam uma população que não está vacinada, se alastram e a gente volta a situações do passado. A única doença que a gente conseguiu acabar, mesmo, que não tem nenhum caso na face da Terra, é a varíola. A vacinação extinguiu a doença. Agora, as outras estão por aí. Tem poliomielite, especialmente em zonas conturbadas como fronteiras do Paquistão e do Afeganistão, em zonas da África, com guerras locais onde não se consegue vacinar as crianças, e essas pessoas circulam pelo mundo. Há epidemias de sarampo na Europa, a Alemanha tem uma epidemia horrível de sarampo. Mas por quê? Porque os pais não vacinaram mais as crianças. Eles foram vacinados, mas os filhos não.

Que cuidados devemos ter no inverno e o que é preciso para aumentar a imunidade?
Está mais que demonstrado que não é o frio que provoca gripes e resfriados. Se fosse assim os canadenses passariam seis meses do ano resfriados, e os noruegueses também. São doenças provocadas por vírus. Os vírus de gripes e resfriados têm uma estratégia maravilhosa. Se eu tusso, o vírus pode atingir três metros com essas gotículas que saem da boca. Por isso se recomenda quando tossir por o braço, um lenço na boca. Se eu espirro com o nariz virado a 45 graus, ele chega a 11, 12 metros de distância. Você pega um ambiente fechado, com pessoas tossindo, espirrando, nem sempre pessoas educadas, e você começa a criar uma suspensão de vírus naquele ambiente. Como você não abre as portas, por causa do frio, aquela nuvem persiste. E aí você pega. Esse é o primeiro jeito. O segundo é a mão. Quando a gente está resfriado toda hora assoa ou coça o nariz, e aí pega na maçaneta, pega nos objetos. O vírus persiste ali. E no contato de mão com mão. Então primeiro não se deve pensar que é pelo frio, são os ambientes fechados. No inverno é bom lavar a mão muitas vezes, especialmente se você está em algum escritório e tem alguém gripado, resfriado, porque você pega nas coisas e o vírus vem na sua mão. Evitar dar a mão para as pessoas, o certo no inverno era todos nós virarmos japoneses: vai cumprimentar e abaixa a cabeça, não toca na mão. E a vacina contra a gripe.

Inclusive para quem não está nos grupos de risco?
Para quem pode, vale a pena. Gripe não é resfriado. Uma medida prática para diferenciar, quando eu tenho um paciente que me diz que na semana passada teve uma gripe, eu pergunto _ você foi trabalhar? Porque com resfriado você vai trabalhar. Meio cansado, meio desconfortável, mas vai. Com gripe você não aguenta. Se for trabalhar acaba voltando para casa. porque a gripe é uma doença muito mais grave. O resfriado pega as vias aéreas superiores. A gripe pega as inferiores, os pequenos brônquios. Então a tosse fica muito pior, tem tendência a formar infecções bacterianas, como pneumonias e outras complicações. Além do que, a gripe debilita a imunidade e dá dores musculares fortes, cansaço. É uma doença muito mais grave do que o resfriado, por isso é que velho acaba morrendo de gripe.

O senhor retoma em seu último livro a questão das prisões. Qual a solução para o sistema prisional brasileiro?
Nenhuma, não há solução. Enquanto você tiver pessoas numa situação dessas, em que as periferias das cidades são formadas por um número enorme de crianças, muitas filhas de outras crianças, meninas de 12, 13, 15 anos que dão à luz, e você não tiver escolas de qualidade, em que se possa dar educação para essas crianças, eu posso oferecer a elas um caminho possível? Nós produzimos ladrões com uma velocidade que a gente não consegue aprisionar depois. Em 1990, quando comecei esse trabalho nas prisões, nós tínhamos no Brasil 90 mil prisioneiros. Quase todos homens, mulheres eram um pequeno grupo. Hoje tem 675 mil. Melhorou a segurança nas cidades? Piorou, não piorou? A sociedade diz que tem que prender, eu também acho, porque não se pode deixar uma pessoa que é uma ameaça à sociedade solta na rua. Mas você não pode ter a ilusão de que com isso vai ter segurança. Aumentamos 700% o aprisionamento e as cidades estão mais inseguras ainda. Porque com o aprisionamento estamos lidando com as consequências de um fenômeno que começou lá atrás, com o menino, a menina que entrou para o crime com 15, 16 anos. Por que as pessoas ricas, a classe média alta não entra no crime com essa velocidade? Fazem outros tipos de crimes, não esses violentos. Porque têm outras oportunidades.

A liberação das drogas pode ser uma solução para a superlotação?
A lei das drogas tem que mudar, não dá para ficar prendendo pequenos traficantes. Não estou discutindo ponto moral, talvez eles até mereçam ficar presos, mas não tem lugar para por tanta gente. E aí você pega um pequeno traficante que está vendendo um pouco de maconha, e põe numa cela com 20 pessoas, bandido, ladrão de banco, ele sai muito pior. Você pega uma pessoa que não oferecia periculosidade e transforma em um ladrão agressivo. Isso tem que mudar. Agora, liberar não é fácil assim também. Quem vai plantar maconha, é o Estado? Vamos criar a maconhabras? Ou vamos liberar para o tráfico? E os que estão presos, a gente solta? Não é simples. O que a gente tem que fazer é ver como os outros países estão lidando com esse problema e tentar adaptar essas ideias que deram certo para a nossa realidade. Mas é um longo processo.

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