Condenações revelam tolerância zero ao crime organizado em Santa Catarina - Segurança - O Sol Diário
 
 

Combate ao PGC14/05/2014 | 06h32

Condenações revelam tolerância zero ao crime organizado em Santa Catarina

Grande parte dos envolvidos nos ataques a ônibus e prédios públicos estão presos desde fevereiro de 2013

Condenações revelam tolerância zero ao crime organizado em Santa Catarina Pena Filho/Agencia RBS
Dos condenados, 25 terão direito a recorrer da sentença em liberdade Foto: Pena Filho / Agencia RBS

A dura resposta do Judiciário ao Primeiro Grupo Catarinense (PGC) _ apontado pela polícia como autor de duas ondas de atentados no Estado em 2012 e 2013 — revela um sufocamento ao crime organizado em Santa Catarina. Somados, os 80 condenados terão de cumprir pelo menos 1.049 anos de prisão, conforme revelou o DC com exclusividade na edição de ontem. Os principais líderes da facção poderão ficar 30 anos na cadeia — o máximo que a lei brasileira permite.

A sentença da 3ª Vara Criminal de Blumenau foi publicada segunda-feira à noite, resultado de um trabalho conjunto iniciado em novembro de 2012. Grande parte dos envolvidos nos ataques a ônibus e prédios públicos estão presos desde fevereiro de 2013. Dos condenados, 25 terão direito a recorrer da sentença em liberdade. Na opinião de especialistas e autoridades ouvidos pela reportagem, a decisão judicial atinge diretamente o crime organizado e enfraquece o PGC.

Apesar de grande parte dos condenados já estar cumprindo penas altas, a possibilidade de a facção cooptar novos integrantes fica prejudicada. É o que a polícia está chamando de efeito pedagógico aos criminosos (leia entrevista abaixo com o diretor da DEIC). Sem contar que os anos a mais de cadeia recebidos na sentença também retardarão o tempo que o preso terá para o direito à progressão de regime.

— O crime organizado sempre vai cooptar aqueles que não têm pena alta e pensam em se sentir blindados fazendo parte desses grupos. Mas agora eles podem ficar mais expostos, por isso também o efeito benéfico no médio e longo prazo — analisou o especialista em segurança pública Sandro Sell.

Da mesma forma, o delegado-geral da Polícia Civil, Aldo Pinheiro D'Ávila, aponta para um sinal de alerta a quem vinha agindo nos atentados:

— Hoje uma pessoa vai pensar, duas, três vezes antes de colocar fogo em um ônibus — diz Aldo, que considera a sentença como histórica no Brasil em termos de condenações a facções criminosas.

O mestre em Ciência Jurídica e professor da Univali, Alceu de Oliveira Pinto Júnior, destaca a importância da resposta da Justiça à população, a maior atingida nos sucessivos ataques. Para que realmente haja o enfraquecimento do crime organizado e novas ações sejam evitadas, ele defende a dura atuação no combate à criminalidade e a melhoria nas condições das unidades prisionais, que motivaram o início dos atentados.

"Não estamos livres de novos atentados"

A sentença dos 80 acusados de envolvimento nos atentados de novembro de 2012 e fevereiro de 2013 publicada na noite de segunda-feira deverá ter um efeito pedagógico aos participantes do crime organizado de Santa Catarina. A afirmação é do diretor da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (DEIC), Akira Sato.

Em entrevista ao Diário Catarinense, na Delegacia Geral, ele ainda afirmou que a polícia espera que estes líderes permaneçam presos pelo tempo máximo permitido no Brasil, 30 anos, e que, apesar das penalidades, o Estado não está livre de novos atentados.

Diário Catarinense —O senhor acredita que haverá efeito por causa da sentença no crime organizado?
Akira Sato —
Com certeza. Tem efeito pedagógico também. Aquele velho ditado que o crime não compensa. Muitos ali tiveram penas num patamar que a mídia considera elevada, mas nós consideramos de forma justa. Afinal, não foram poucos os problemas que o Estado sofreu.

DC — Por até quanto tempo a polícia espera que os líderes fiquem na cadeia?
Akira —
Eles já cumprem penas altas. Com essa somatória ultrapassa 30 anos. Pela nossa legislação permanecem por até 30 anos, pois há casos ali com mais de 50 anos de condenações.

DC — Esses líderes que estão no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) podem voltar ao Estado. Como a polícia enxerga isso?
Akira —
Existe um planejamento da construção de um RDD aqui no Estado. É o que se tem buscado. Qualquer dificuldade que venha a surgir, eles podem novamente voltar ao RDD em outro Estado no contexto federal.

DC — Mas a polícia vê necessidade então de se criar o RDD em SC?
Akira —
Sim, isso foi muito conversado. É uma necessidade sim. Temos aqui presos periculosos, que têm articulação, comunicação. O que a gente precisa é cortar o vínculo, a comunicação. Quanto mais distante é melhor pelo sufocamento financeiro do crime organizado.

DC — Há corrupção alimentando facção criminosa? Como os presos têm facilidade em obter celular?
Akira —
Existe essa parte. Mas não entra só dessa forma. Observamos também que entra por órgãos genitais, por falta de aparelhos de detecção, arremessos externos são constantes.

DC — O trabalho policial indica que o berço dessas quadrilhas ainda são o sistema prisional?
Akira —
Com certeza. A questão das facções dentro de presídios é fato.

DC — Tivemos ônibus queimados recentemente, se ameaçou uma nova onda. O que houve?
Akira —
Houve uma confusão, informação truncada entre eles (presos). Não havia certeza se havia ordem ou não para se queimar ônibus, se era ação isolada de grupos inferiores ou de outra parcela da população carcerária.

DC — Mesmo com os líderes no RDD não estamos livres de novos atentados?
Akira —
Não. Claro que existe todo um aparato investigando, atento. Mas livres não estamos.

DC — Há novas facções surgindo?
Akira —
Novas não, mas existem outras pequenas que apontam... (evita dar detalhes).

DIÁRIO CATARINENSE

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