Blumenauenses narram o sentimento de tensão ao ter que retomar a rotina após assaltos - Segurança - O Sol Diário

Medo09/05/2017 | 09h52Atualizada em 09/05/2017 | 09h52

Blumenauenses narram o sentimento de tensão ao ter que retomar a rotina após assaltos

Muitos ficaram reféns da violência mais de uma vez

Blumenauenses narram o sentimento de tensão ao ter que retomar a rotina após assaltos Lucas Correia/Agencia RBS
Foto: Lucas Correia / Agencia RBS

Muitas vezes o medo e os traumas de quem passou repetidas vezes por experiências intensas de violência vêm somados a mais um fator: o prejuízo. Não são poucos os estabelecimentos comerciais atacados por assaltantes mais de uma vez e, dessa forma, empreendedores simplesmente desistem de lutar contra a insegurança e cerram suas portas. Foi o que ocorreu com uma ótica no bairro Itoupavazinha, fechada depois de ter sido assaltada duas vezes. 

A gerente e filha do proprietário, que não quis se identificar, conta que a decisão foi tomada após o segundo roubo ocorrer na semana passada. Ela estava sozinha quando os criminosos chegaram ao local e acredita que foi melhor assim, já que um deles estava armado e a situação ficou, de certa forma, controlada.

— Nós ainda nem nos recuperamos do primeiro, e já sofremos outro assalto. No anterior eu não estava, a funcionária estava sozinha e ela ficou bem traumatizada, não quis mais trabalhar sozinha na loja, então eu fiquei aqui. Mas aconteceu de novo e o que fica, além de muita raiva, é a frustração, a decepção de ver um sonho ir por água abaixo e não poder fazer nada. Você se sente um fracassado, mas não temos mais o que fazer — desabafa.

:: Superar o medo e a sensação de vulnerabilidade são os desafios de pessoas que sofreram com assaltos

A loja tem uma série de produtos de alto valor, como joias e relógios, mas apesar de seguir trabalhando enquanto o espaço é desmontado e os últimos clientes são atendidos, a tensão permanece no ar desde o último ato de violência. A gerente conta que cada motocicleta que passa levanta uma suspeita e sempre que levanta a porta a sensação de apreensão a acompanha até o fim do expediente:

— Você não sabe se eles (os assaltantes) vão ficar descontentes com o que levaram e vão querer voltar para pegar mais coisas... É muito difícil.

Susto que perdura

Luiz reforça grade frontal Foto: Lucas Correia / Agencia RBS

Faz quase três anos, mas quem passou pelo assalto a uma farmácia na Rua 2 de Setembro ainda lembra dos detalhes. Luiz Vicenzi, 59 anos, foi rendido no interior da loja por um bandido armado enquanto outro roubava R$ 200 do caixa e três celulares. De lá para cá o estabelecimento já passou por algumas mudanças. Reduziu o fim do expediente em uma hora, aumentou a precaução com grades e instala câmeras de vigilância. 

Até o endereço mudou — hoje está em um imóvel alguns metros ao lado. Ali não houve mais assaltos, mas as atendentes contam histórias que ficaram no quase. O suficiente para fazer com que a sensação de insegurança paire pela loja onde Luiz, pai e sogro do casal dono da farmácia, ainda tem a missão de vigiar a entrada quando a noite chega e fechar as portas ao fim do expediente:

— Fiquei 10 dias de folga em janeiro e já teve movimentação suspeita aqui nas lojas ao redor. Nossa presença ajuda a inibir. O susto daquela vez já passou, mas claro que quando a gente vê uma moto com duas pessoas passando, por exemplo, já fica com algum receio.

Ameaça superada pelo ofício

Eliane fica mais atenta hoje Foto: Lucas Correia / Agencia RBS

A fiscal de caixa Eliane Giardini, 32 anos, conta com tranquilidade os fatos do assalto que sofreu há pouco menos de um ano no mercado em que trabalha, no bairro Ponta Aguda. Sempre achou que ficaria nervosa se um dia acontecesse com ela, mas — a vida é assim mesmo — quando aconteceu conseguiu lidar com frieza. Tinha acabado de voltar do horário de almoço, às 15h. Apoiou-se sobre o antebraço no balcão de granito do café ao lado do caixa. Viu um rapaz estacionando uma moto e outro, de capacete, simulando estar com uma arma e dizendo que só queria o dinheiro.

"Se queres dinheiro tens que ir no caixa", foi a frase que a funcionária respondeu de supetão, um segundo antes de perceber do que realmente se tratava. Uma atendente do caixa saiu correndo — ela ficou abalada dias a fio — e coube a Eliane abrir a registradora e entregar o dinheiro ao rapaz de apenas 14 anos, que acabou preso meia hora após o crime graças à ajuda das câmeras de vigilância.

A crítica ao baixo policiamento não é tão grande como são as queixas direcionadas às leis que permitem manter em liberdade eventuais suspeitos de algum roubo a comércio. A ameaça de um indivíduo armado no local de trabalho pesou nos primeiros dias, mas foi superada no decorrer das jornadas de trabalho, muito por conta da necessidade do ofício. Ainda assim, os cuidados com a movimentação em volta da loja aumentaram com câmeras de segurança e sensores. No dia a dia no mercado, porém, algumas reações parecem efeitos sintomáticos da pressão vivida à frente dos assaltantes.

— Às vezes a gente sente medo. A cada moto que para aqui na frente a gente já fica inseguro. Mas em geral a gente aumentou a atenção para não passar por isso de novo — conta.

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"Você nunca mais é o mesmo"

Vilmar abre a loja mais tarde Foto: Patrick Rodrigues / Agencia RBS

O horário de funcionamento da loja mudou. As portas que antes se abriam às 8h30min agora esperam mais meia hora, quando acelera o vai e vem de passos na calçada, antes de cumprir a função de permitir o acesso dos clientes. As câmeras aumentaram. Ao final do expediente, trancas são conferidas mais de uma vez. As grades são fechadas testando a agilidade do pescoço para perceber qualquer suspeito que possa estar nos arredores.

O comerciante Vilmar Alves tem uma loja de roupas e acessórios para o público jovem há 22 anos na Rua XV de Novembro, em Blumenau. Mas há um ano e meio os cuidados e a sensação de vigilância se sobressaem. Numa manhã de dezembro de 2015, Vilmar e mais sete pessoas que estavam na loja logo cedo, às 8h45min, foram abordados por dois homens que chegaram em uma moto. Eles apontaram armas, ameaçaram e chegaram a dar um chute no peito de Vilmar. Enquanto um rendia clientes e lojista na área de provador, outro quebrou o vidro de dois expositores. Fugiram levando óculos e relógios em uma mochila — um prejuízo à época estimado em quase R$ 100 mil.

Onze meses depois um furto em outra loja que mantém no shopping aumentou o desânimo e o prejuízo. Um sentimento que ganha contornos de indignação quando aponta a falta de policiamento que diz enxergar diariamente na principal rua comercial da cidade. Cobra medidas como mais rondas e videomonitoramento, possíveis formas de diminuir a sensação de exposição e evitar novos casos de violência como aquele que permanece na memória do empresário.

Você nunca mais é o mesmo. Cheguei a sonhar com isso umas 50 vezes. Imagina alguém com uma arma apontada para a tua cara. Passa até hoje na minha cabeça. Esses dias fiquei meia hora a mais na loja porque tinha um cara sentado no banco da frente na hora de fechar. Outro dia porque um carro de fora com duas pessoas encostou e ficou parado aqui na frente. Fui obrigado a chamar a polícia, mas eles foram embora antes. Tu ficas com medo — admite.

Incerteza a cada nova corrida

Noite do assalto foi impactante Foto: Lucas Correia / Agencia RBS

As corridas do taxista Nicolau Meretika, 61 anos, têm sido mais criteriosas nos últimos dois meses. Há cerca de dois anos ele deixou a vida de vigilante para dirigir um veículo de transporte individual no horário da noite e madrugada. Tirando os dias de fim de mês e menos passageiros, tudo ia bem até março deste ano. A percepção mudou quando foi acionado para levar dois homens da pracinha da República Argentina para a região da Rua Araranguá, no bairro Garcia, por volta de uma da manhã. Terminou trancado no porta-malas do carro.

— No final da corrida o passageiro que estava atrás me deu uma gravata e começou a me sufocar. Eu não conseguia respirar, rapaz. Enquanto isso o outro pegava o dinheiro, o celular. Nunca pensei que fosse passar por isso.

Nicolau só conseguiu escapar quando percebeu que os ladrões eram ruins de roda e não conseguiram guiar o carro em uma subida em transversal da Rua São Bento, já no bairro Vorstadt. Puxou uma trava de segurança e saiu correndo em direção à rua principal, com a mesma velocidade em que os assaltantes fugiram deixando o carro todo aberto e uma embreagem queimada.

Nicolau ainda conta os detalhes com os mesmos olhos arregalados que encarava os momentos de maior tensão. O impacto da ação dos bandidos ficou tão marcante que, no dia do assalto, só foi conseguir dormir ao amanhecer. Mas depois, a necessidade chama, e o medo foi sendo encarado pé por pé, um dia após o outro ao volante.

— A gente se sente inseguro, não sabe o que vai acontecer com o próximo passageiro. A mulher e a filha não queriam mais que eu voltasse, mas não tem como, a gente precisa trabalhar, né. Só presto mais atenção a tudo agora. Dependendo o horário e o lugar da corrida eu evito ir para não correr risco — revela.

Drama de lidar com dinheiro

Machado foi usado no crime Foto: Patrick Rodrigues / Agencia RBS

Uma casa lotérica na Rua da Glória fechou as portas em fevereiro após sofrer um violento roubo à luz do dia, pouco antes do final da tarde, quando três assaltantes quebraram a lateral da porta giratória utilizando um machado. A funcionária que trabalhava no local foi agredida pelos bandidos, iniciou terapia para tratar o trauma desenvolvido pela violência que sofreu e hoje prefere não falar do assunto. A gerente do estabelecimento explica que o local, que era uma filial, já havia sido assaltado outras vezes e que depois da gravidade do ataque sofrido no início do ano, o proprietário também decidiu fechar a unidade para evitar mais prejuízo financeiro e psicológico.

Hoje, os funcionários que atuam na loja principal lidam com a tensão no dia a dia e preferem não pensar nos riscos do trabalho.

— A gente olha para os lados, tanto na entrada quanto na saída e tenta tomar os cuidados. Muita gente não respeita e ainda entra de capacete, por exemplo, ou se para alguém diferente, se fica lá do outro lado da rua olhando aqui para dentro já ficamos ligados, ligamos para a polícia... Não tem o que fazer além disso — avalia a gerente, que também não quis se identificar.

Sobre a tensão do dia a dia, ela comenta que não há muito o que fazer. A equipe brinca para descontrair o ambiente e tenta trabalhar da maneira mais tranquila possível, mas a profissional diz que não há fórmulas. Para se precaver, ela cogita até mesmo a instalação de porta giratória — que era usada na filial assaltada —, mas entende que não há uma maneira de estabelecer segurança total:

Hoje em dia se você trabalhar numa farmácia, num supermercado, qualquer lugar você está sujeito, estão assaltando até igreja! Então qualquer lugar, se lida com dinheiro, com comércio, vai ser essa tensão, é visado, e mais dia, menos dia, você é assaltado.

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